O Grande Congelamento: Como o universo morrerá - The Big Freeze

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 The Big Freeze: A morte fria e lenta do Universo


O cosmos pode nunca ter um fim propriamente dito. Mas, se você fosse imortal, provavelmente desejaria que tivesse. O destino final do nosso Universo é um processo longo e gelado, que os astrônomos chamam de Big Freeze (Grande Congelamento) ou Big Chill.

É uma descrição adequada para o dia em que todo calor e energia estiverem distribuídos uniformemente por distâncias incompreensivelmente vastas – um estado de máxima entropia, como prevê a segunda lei da termodinâmica. Nesse ponto, a temperatura final do Universo pairará pouco acima do zero absoluto (−273,15 °C ou 0 K).


Expansão acelerada: o papel da energia escura

Há cerca de 13,8 bilhões de anos, nosso Universo nasceu com o Big Bang. Desde então, ele se expande. Até poucas décadas atrás, achava-se que essa expansão poderia um dia parar e se inverter, levando a um Big Crunch – um colapso em uma singularidade infinita.

Porém, em 1998, duas equipes independentes de astrônomos (lideradas por Saul Perlmutter, Brian Schmidt e Adam Riess, Prêmio Nobel de Física de 2011) descobriram que supernovas tipo Ia – “velas padrão” de brilho intrínseco conhecido – estavam mais fracas e mais distantes do que o esperado. Isso indicava que a expansão do Universo está acelerando, impulsionada por uma força misteriosa chamada energia escura.

Hoje, a composição do Universo é estimada como:

  • Energia escura: 68–69%
  • Matéria escura: 26–27%
  • Matéria normal (átomos, estrelas, planetas, vida): ~5%

Esses números vêm do Planck Collaboration (2018): densidade de energia escura ≈ 70% da densidade crítica do Universo.


A morte térmica (Heat Death) e a física por trás

O nome técnico para o Big Freeze é morte térmica do Universo. Ela decorre diretamente da segunda lei da termodinâmica: a entropia total de um sistema isolado (como o Universo como um todo) nunca diminui. Com o tempo, a energia se espalha e as diferenças de temperatura desaparecem, tornando impossível realizar trabalho útil.

A escala de tempo envolvida é tão colossal que poucos cálculos reais cabem na intuição. Vamos usar algumas estimativas da literatura (Adams & Laughlin, 1997; Krauss & Starkman, 2000; Fred C. Adams, 2020):

1. Fim da era estelar (Stelliferous Era)
Daqui a ≈ 10¹⁴ anos (100 trilhões de anos), o gás disponível para formar estrelas terá se esgotado. As últimas estrelas anãs vermelhas terão queimado todo seu hidrogênio e se apagado.

2. Era dos remanescentes (Degenerate Era)
Entre ~10¹⁵ e 10³⁷ anos, anãs brancas, estrelas de nêutrons e planetas começam a decair. Prótons (antes considerados estáveis) podem eventualmente decair – se a meia-vida do próton for, como prevêem algumas Grandes Teorias Unificadas (GUTs), da ordem de 10³⁴ anos (limite experimental atual: > 1,6 × 10³⁴ anos – Super-Kamiokande).

3. Era dos buracos negros (Black Hole Era)
Entre ~10⁴⁰ e 10¹⁰⁰ anos, os buracos negros dominam. Eles evaporam lentamente via radiação de Hawking.

A temperatura de Hawking de um buraco negro é:

 

T=c38πGMkB

Para um buraco negro de massa solar (M ≈ 2×10³⁰ kg), isso dá T ≈ 6 × 10⁻⁸ K – muito frio. O tempo de evaporação é:

tevap=5120πG2M3c42,1×1067(MM)3 anos
  • Um buraco negro de 1 massa solar leva ≈ 2 × 10⁶⁷ anos para evaporar.

  • Um buraco negro supermassivo (como o de Sagittarius A*, com ~4 × 10⁶ M☉) leva ≈ 10⁹⁹ anos (1 googol anos, ou 10¹⁰⁰ anos).

4. Era das trevas (Dark Era)
Após 10¹⁰⁰ anos, nenhuma matéria normal resta. Fótons, neutrinos e partículas ultrafrias vagueiam com comprimentos de onda comparáveis ao horizonte cósmico (hoje ~10²⁶ m, mas então imensamente maior). A temperatura do Universo tenderá ao zero absoluto assintoticamente, como no modelo de cosmologia de de Sitter.


O que diz a termodinâmica? Um cálculo real

A expansão acelerada do Universo é descrita pelas equações de Friedmann. O parâmetro da energia escura (Λ) é ≈ 1,1 × 10⁻⁵² m⁻². A temperatura do Universo hoje é ~2,725 K (radiação cósmica de fundo – CMB). No futuro, a temperatura vai cair exponencialmente com o fator de escala a(t):

T(t)eHt

onde H ≈ 2,2 × 10⁻¹⁸ s⁻¹ (constante de Hubble atual ~67 km/s/Mpc). Isso significa que a cada ≈ 14 bilhões de anos, a temperatura cai por um fator e (~2,718). Daqui a 1 trilhão de anos, a radiação cósmica de fundo estará bem abaixo de 1 K – e continuará caindo para sempre.